• Felipe S Cohen

A escolha de Sofia

Por Milena Peclat


Em períodos de escassez há sempre um dilema: quem iremos priorizar para receber o mínimo de recursos que ainda existe?


Um exemplo claro dessa situação se dá quando os médicos estão diante de dois pacientes em estado igualmente grave e há apenas um lugar disponível no equipamento de respiração.


Escolher quem vai poder respirar é escolher quem vai viver - ou vai, ao menos, ter a chance de continuar lutando para sobreviver. Em contrapartida, isso também quer dizer que um ser humano será privado de desfrutar da troca de gás carbônico por oxigênio em seus pulmões. O tempo urge, a decisão é tomada: uma pessoa foi escolhida para morrer.


Transpondo essa situação para a missão que a SOS 3D COVID-19 está desempenhando, só precisamos trocar a equipe médica por nossa própria equipe. Em uma realidade crítica, onde falta o mínimo de proteção a nossos profissionais de saúde, ser capaz de produzir um equipamento que traz uma melhora efetiva na condição desses trabalhadores é um alento em nossos corações. Ao mesmo tempo, assumimos a nossa impotência, por não poder atender a todos aqueles que gostaríamos, diante da enorme demanda que se apresenta em tempos de epidemia.


Vivenciar um Brasil já atravessado pela profunda desigualdade social, que todos os dias nos diz quem está marcado para viver e quem vai permanecer na margem, à espera de algum socorro misericordioso, nos leva a refletir sobre nosso papel neste cenário.


É uma corrida contra o tempo, sem uma linha de chegada. O que sabemos é que não podemos parar - ao contrário, temos que aumentar nosso ritmo. Mas não podemos admitir a possibilidade de reproduzir uma lógica segregacionista na hora de escolher pra quem e onde vamos distribuir os nossos protetores. É nosso compromisso: nunca perder de vista o senso de responsabilidade, humanidade, democracia e equidade.


Levando em consideração esses quatro valores, foi inevitável pensar na hierarquia do SUS como um norte, a direção inicial a ser tomada. A partir desse sistema de organização, conseguimos identificar a localização e a quantidade dos profissionais que inegavelmente estão necessitando dos nossos protetores faciais. Em linhas gerais, a hierarquia do SUS é dividida pelo nível de complexidade das centrais de saúde, no seguinte critério: a Atenção Primária corresponde às unidades de pequena complexidade, como as clínicas da família; a Atenção Secundária responde pelas unidades de média complexidade, as grandes emergências; por fim, a Atenção Terciária contempla as unidades de alta complexidade, os hospitais especializados que, no atual momento, são referência para o tratamento dos casos graves de COVID-19.


Dessa forma, as divisões de média e alta complexidades se tornaram os destinos prioritários de nossos faceshields. Mas isso não significa negligenciar os profissionais das clínicas da família e dos pronto-socorros! Efetivamente, eles recebem todos as entregas possíveis dentro de nossa perspectiva.


E ainda assim, é duro lidar com as limitações.


A cada ligação que fazemos para uma unidade de saúde experimentamos um misto de desespero e esperança. Desespero, por estar diante do descaso e da escassez; esperança, por saber que temos como contribuir com a redução da contaminação - isso nos emociona, e nos apoiamos neste sentimento para seguir em frente. Como já dito, a necessidade de estabelecer prioridades, escolhendo quem vai ou não receber os protetores, é hoje o grande dilema de nossa equipe.


Quando nos remetemos à Escolha de Sofia, é para buscar em uma dimensão filosófica a humildade, a consciência da justiça e o pragmatismo necessário para lidar com esse dilema.


Diante da morte de vários médicos e enfermeiros que enfrentaram a pandemia em outros países, tudo o que queremos é minimizar os riscos de contaminação de nossos profissionais de saúde aqui no Brasil. Dar-lhes a chance de se proteger é o mínimo que podemos fazer agora.


Nossa esperança é que, além de proteção, nosso equipamento traga a sensação de que cada dia é mais um dia a favor da vida daqueles se dispuseram nessa corajosa missão de cuidar da nossa população.


A todos os profissionais da saúde, nossa imensa gratidão!





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